sexta-feira, 2 de setembro de 2011

A leitura como primeiro passo para uma boa escrita



Desde que comecei a atuar na área de educação um dos fatores que mais me preocupa e que, com certeza, tira o sono de qualquer pai é a questão da leitura e escrita dos filhos. 


Os tempos são outros, o conhecimento está mais acessível, atualizado e exigente. Para os pais é uma tarefa difícil acompanhar todo esse ritmo. 


Atuando diretamente no acompanhamento escolar das crianças, percebo que a problemática com as disciplinas de exatas ainda continuam, mas o “bicho papão” do momento agora é outro: a leitura e a escrita.


Quando falamos do processo de leitura e escrita, temos várias vertentes e uma delas é que cada criança aprende de maneira diferente e cada uma tem seu tempo . Embora a escola, o modelo de ensino e os coleguinhas da classe sejam os mesmos, algumas crianças vão ter mais facilidade e outras não. Logo, senhores pais, não se desesperem.


Lógico que todo conselho é válido para tentar amenizar os problemas decorrentes neste processo, mas antes de tudo, é necessário identificar onde ele está. A escola, como instituição de ensino, deve constatá-lo e buscar alternativas junto aos pais. Os mesmos devem intervir e acompanhar de perto o que está ocorrendo, não esperando, somente, atitudes por parte da escola. 


Descartar possibilidades como problemas de visão, de audição, de aprendizagem devem ocorrer em primeiro tempo. Entender o que está acontecendo e sair em busca de soluções como: psicopedagogos, psicólogos, fonoaudiólogos, aligrafias, livros de literatura é uma boa alternativa. Mas antes de procurar ajuda “extra”, vamos tentar entender um pouco como ocorre o processo de leitura e escrita em uma criança e como podemos estimulá-lo.


A maioria de nós vai pensar que é na alfabetização, mas muitos estudiosos sobre o assunto concordam que este processo ocorre muito antes do que imaginamos. Antes, mesmo, de a criança freqüentar a escola. Vem a ocorrer quando ela inicia o contato com materiais escritos em seu ambiente social.

Segundo a autora argentina Emilia Ferreiro, a criança pensa sobre a escrita, formulando hipóteses sobre ela, como maneira de compreender o que significa. Ela ainda não associa os sons falados a letras escritas concisas. Mas em seus rabiscos ela diz estar escrevendo e até consegue ler o que escreveu. Ela não sabe ler “Coca-cola”, mas identifica o “desenho” e sabe associá-lo a fala. Essas tentativas devem ser incentivadas e reforçadas. Rubem Alves, em um dos seus textos, cita a importância desta fase:


“Tudo começa quando a criança fica fascinada com as coisas maravilhosas que moram dentro do livro. Não são as letras, as sílabas e as palavras que fascinam. É a história. A aprendizagem da leitura começa antes da aprendizagem das letras: quando alguém lê e a criança escuta com prazer. A criança volta-se para aqueles sinais misteriosos chamados letras. Deseja decifrá-los, compreendê-los – porque eles são a chave que abre o mundo das delícias que moram no livro! Deseja autonomia: ser capaz de chegar ao prazer do texto sem precisar da mediação da pessoa que o está a ler.”


Lembro-me bem que um dos fatores que mais me estimulou a aprender a ler nesta época foram as histórias em quadrinhos. Meus irmãos, mais velhos, nunca queriam lê-las para mim e eu tentava “decifrar” aqueles sinais. Tinha tanta sede de aprender a ler que quando comecei a alfabetização lia tão rápido que era necessária a intervenção da professora. Tive a sorte de ser incentivada através de histórias de quadrinhos, livros e discos que contavam os clássicos contos infantis.


Durante a aprendizagem da escrita, a criança passa por várias fases até chegar à hipótese alfabética (veja fig. 01), quando ela vai começar a associar o som a cada caráter escrito. Ainda não há o domínio das regras ortográficas, mas a produção escrita se torna legível para um adulto. Por se tratar de uma aquisição cultural, que não ocorre apenas internamente na criança, o meio em que ela está inserida pode estimulá-la, a fim de que possa perceber as diferenças no padrão de escrita do idioma e compará-los com sua maneira de escrever para que adquiram a escrita ortográfica. A criança vai escrever como fala ou como acha que deve ser e em contato com outros materiais escritos e estimulo do ambiente vai poder identificar e comparar sua escrita, identificando os seus erros.


É importante lembrar que podem ocorrer diferenças quanto as idades no processo da evolução da escrita, essas diferenças têm a ver com o maior ou menor interesse e estimulação. 


Nesta fase o acompanhamento dos pais é fundamental. Principalmente quando a criança está em uma fase inicial do processo e a requisição escolar é de uma fase mais adiantada. Identificar e tratar das dificuldades referentes ao processo durante este período é fazer com que a criança evolua, já que problemas não solucionados a tempo podem se transformar em uma “bola de neve”. 


A leitura deve ser apresentada desde cedo a criança, pois desenvolve-se de forma gradual e é um hábito a ser adquirido, de forma prazerosa. O ambiente social (família) é um dos primeiros e grandes incentivadores, já que um hábito dos pais serve de modelo para as crianças. Se os pais lêem para os filhos ou tem o costume de incentivá-los através de jogos, brincadeiras, músicas ou atividades que associem a leitura, os filhos irão se espelhar em seus modelos e será mais prazeroso o hábito da leitura e consequentemente o da escrita.

Não se deve punir, nem criticar uma criança por não estar lendo ou escrevendo de forma adequada ou como outra da mesma idade. Isso pode atrapalhar em seu desenvolvimento e trazer insegurança e incapacidade. Deve-se compreender e incentivá-la de maneira que lhe estimule e traga prazer.


A leitura reflete, significamente, na escrita do ser humano, seja ele criança ou adulto. Pois é, a partir dela, que vamos memorizar certas “regras ortográficas”, ampliar nosso vocabulário, conhecer estruturas de diferentes textos, respeitar os padrões de língua, fazer associações, interpretações, adquirir conhecimento e construir conhecimento. A literatura traz novos horizontes, desperta curiosidades, encontra novidades. 


Só se aprende a ler e escrever, lendo e escrevendo.

Por: Anahí Rivas Coordenadora do NAP – Núcleo de Apoio Pedagógico. nap.feira@gmail.com Pós graduanda em Psicopedagogia pela Visconde de Cairu. Licenciada em letra vernáculas pela UEFS

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